sábado, 21 de dezembro de 2013

Reflexões no fundo do copo

Hoje escrevo porque novamente estou confuso.

Novamente sinto um vazio no peito e não sei preencher.

O estranho é que não estou necessáriamente infeliz, tenho, talvez pela primeira vez na vida, um vislumbre do que seria fazer o que realmente sou.

Contudo, isto não está sendo o suficiente.

Explicando em miúdos, estou criando novamente, me sinto vivo quando viajo pelo meu mundo, quando vejo o desenrolar da trama, quando percebo que algo vai acontecer ou descubro o porque de algo ter acontecido. Mas esta vida deixa de me satisfazer quando preciso enfrentar a volta para o mundo dos sonhos. Enquanto crio, sou expectador, sou leitor e não o escritor, minha mente vaga e fico alí, sentado, simplesmente navegando pelo oceano de informação que reside em um copo. Quanto podemos retirar desse copo sem que ele se esvazie? Quanto podemos beber dessa fonte sem secá-la? Acho que meu problema nunca foi esse e sim a falta de vontade de parar de beber.

Sempre que adormeço e tenho que visitar o mundo dos sonhos me torno triste, me torno sem sentido, me torno vazio e quanto mais tempo se passa nesse mundo mais vazio fico. Então conseguí o que parecia preencher esse vazio, um sonho no mundo dos sonhos, a falta de vontade começara a diminuir lentamente, havia um motivo para estar alí... motivo, talvez seja esse o problema. Achei que se pudesse direcionar minha natureza infantil para a doação de minha energia conseguiria aplacar a dor do vazio, mas isso não está acontecendo.

Tenho muitas idéias que vão de acordo com meus ideais e que não ferem o mundo dos sonhos, disponho minha existência aqui em prol disso se preciso for e me contento com os relances de existência real. Quero doar minha energia para causas realmente necessárias, sem manchá-la pela corrupção financeira, não existe, nem mesmo aqui, no mundo dos sonhos, essa necessidade.

Estou tentando solidificar essas idéias, torná-as paupáveis em um mundo intangível, afinal, o mundo dos sonhos não se importa com idéias, nem com ideais, não se importa comigo ou com você, o mundo dos sonhos se importa em continuar existindo e a cada dia ele existe mais. A cada dia mais pessoas se deixa levar por este mundo, abandonando seus valores, suas idéias, se tornando mesquinhas, ambiciosas, ignorantes e egoístas. A cada dia mais e mais pessoas se tornam cidadãos do mundo dos sonhos e com isso transformam os que aqui apenas estão de passagem, como eu, em marginais e bandidos.

O mundo dos sonhos é difícil, não sei lidar direito com isso, não sei dizer se ele é mais forte do que meus ideais, por hora, não preciso pensar nisso, apenas temo o momento de descobrir. O mundo dos sonhos é agradável, faz com que as pessoas se esqueçam do que realmente é importante e deixa tudo resumido a poucos sentimentos... o eu acaba sendo mais importante que o nós... o eles deixa de ter valor e as vozes não precisam ser ouvidas. Eu não sei nem mesmo o porque de eu estar aqui, estou confuso, não consigo mais acordar, consigo pequenos relances do mundo real e nesses momentos sou livre, consigo voar por centenas de anos em frações de segundo, em alguns minutos estou longe e não paro de ir, tentando, cada vez mais forte, acordar de uma vez por todas e deixar esse mundo dos sonhos para trás.

Mas o mundo dos sonhos é forte, é pegajoso, é astuto, me puxa pelo tornozelo e me deixa exatamente onde estava antes de tentar acordar... sempre de volta ao mesmo ponto, onde, adormecido, me deixo levar pela falsa existência e acabo olhando o copo novamente, triste, solitário, incompreendido, um copo de vinho em uma mesa de pães, nesses momentos percebo que não sou o copo, bebo o vinho e inicio outro dia no mundo dos sonhos. Minha vida deixa de me satisfazer quando preciso enfrentar a volta para o mundo dos sonhos. E a jornada não tem fim.

O mundo dos sonhos reflete o fundo do copo, é vazio e é passado, apenas uma memória que ainda não aconteceu. O mundo dos sonhos é o copo de vinho e quando dele bebemos nos tornamos tudo, menos livres.

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